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"Neide Oréfice e a história da Ortóptica em Minas Gerais. História que ultrapassou as fronteiras, os cantinhos mineiros e merecidamente deixou e continuará deixando importantes registros.

A ortóptica brasileira agradece principalmente toda a sua dedicação na realização de um evento tão importante como foi o III COBO!"

 

MINHA ATIVIDADE NO CAMPO DA ORTÓPTICA
        Neyde Lambert Oréfice     - 15-6-2008

            Meu trabalho como ortoptista no Serviço de Estrabismo do Hospital São Geraldo (Hospital das Clínicas – UFMG)  teve início em janeiro de 1964.
            Eu havia terminado (em fins de 1963) o curso de ortoptista no “Presbiterian Hospital, Columbia University” em Nova York (USA), cujo Serviço de Estrabismo era chefiado pelo Dr. Philip Knapp, sendo que a parte de ortóptica ficava a cargo da ortoptista Sally Moore.
            Embora trabalhasse em áreas muito diferentes (formada em música e biblioteconomia pela UFMG) fui induzida a fazer o curso de ortoptista pelo Dr. Creso Barbi, grande amigo de minha família, colega, no curso médico, de meu irmão mais velho. Dizia ele naquela época, que um grupo de oftalmologistas estava planejando fazer um Grande Centro de Oftalmologia, que abrangeria todas as áreas desta especialidade (hoje, o “Centro Oftalmológico de Minas Gerais”) e que estava faltando uma pessoa que se encarregasse do setor de ortóptica.
            Havia na cidade uma única ortoptista – Matilde Sardinha - (hoje em Brasília) que trabalhava no atendimento de pacientes particulares na Clínica do Dr. Joaquim Marinho de Queiroz. Como eu sempre tive interesse e curiosidade pela medicina, resolvi aceitar o desafio de estudar uma matéria nova, longe da família, numa cidade imensa como Nova York (USA)
Terminado meu curso,  depois de passar nas provas do “Board” e receber o título de “Certified Ortoptist”, o diploma americano, de volta a Belo Horizonte, encontrei o “Centro Oftalmológico” ainda em fase de organização. Dr. Creso Barbi, então, levou-me até o Prof. Hilton Rocha no Hospital São Geraldo, onde o Serviço de Estrabismo estava inteiramente acéfalo, depois da morte prematura da Dra. Mariana Noronha, que até então cuidava dos pacientes estrábicos. Neste serviço trabalhava Sônia Pinheiro Chagas, que havia feito um pequeno treinamento em ortóptica e que mantinha o serviço funcionando precariamente.
            O Serviço de Estrabismo possuía os aparelhos “grandes” necessários ao exame e tratamento do estrabismo tais como: projetor, sinoptóforo, tela de Hess, visoscópio, euthyscópio e até o pleoptóforo, para o tratamento da ambliopia. Entretanto, não havia sequer um prisma e muito menos aqueles pequenos artefatos que são usados para chamar e prender a atenção dos pequenos pacientes.   O Prof. Hilton Rocha, um pouco mais adiante, conseguiu-me barras de prismas, horizontal e vertical, com as quais eu tinha que usar, às vezes as duas ao mesmo tempo, para medir os diversos tipos de desvios oculares. O Prof. Hilton Rocha, sempre muito atencioso, atendendo os meus pedidos, foi pouco a pouco adquirindo os apetrechos necessários para o funcionamento do serviço.
            E assim ficou o Serviço de Estrabismo por mais de um ano. Eu, uma técnica em ortóptica, como chefe do serviço, encarregada inclusive de ensinar aos médicos residentes, e Sônia Pinheiro Chagas como auxiliar. Faltava entretanto, um médico chefe, ou um chefe médico, que assumisse a responsabilidade dos procedimentos, inclusive as cirurgias.
            Conversei então com o Prof. Hilton Rocha sobre as nossas necessidades e ele, em seguida, contactou-se com Dr. Henderson Almeida, que na época se especializava em neuro-oftalmologia nos Estados Unidos e que, depois disso, interessou-se pelo estrabismo, fazendo um estágio como “fellow” no Serviço de Estrabismo” do Dr. Jampolsky.
            Em meados de 1965, Dr. Henderson chegava em Belo Horizonte e já ingressava como chefe do Serviço de Estrabismo do Hospital São Geraldo (HC – UFMG).   Quase imediatamente à chegada do Dr. Henderson, teve início o curso de formação de ortoptistas.   A parte técnica, como anatomia , neurologia, óptica etc., era a mesma dada aos médicos residentes, e a parte prática, feita no Serviço de Estrabismo, era de responsabilidade minha e do Dr. Henderson.
            O curso, no início, recebia 3 alunos, mas passaria a ter apenas 2 nos anos seguintes. A primeira turma do curso de ortóptica foi formada por : Ana Lúcia Valença (de Recife), Eloise Paranhos (de Goiânia) e Maria Aparecida Ferreira (de Belo Horizonte), as duas primeiras, esposas de médicos residentes.
            Até 1970, o curso de ortóptica, funcionou como acima descrito, quando eu tive que entregar o meu lugar como chefe de ortóptica a uma das alunas -Claudia Botelho - pois tive que acompanhar meu marido, Fernando Oréfice, à cidade de San Fracisco, nos Estados Unidos, onde ele faria curso de especialização em uveíte.  Na volta desta temporada, o cargo de chefe da ortóptica estava sendo ocupado pela ortoptísta Lucia Canhesto e eu me desliguei, por completo, do Hospital São Geraldo, indo trabalhar na Clínica de Olhos do Hospital Felício Rocho.
            A Clínica de Olhos do Hospital Felício Rocho era, no início, formada por 3 oftalmologistas : Dr. Eduardo Soares, Dr. Lúcio Almeida e Dr. Fernando Oréfice. Eu era encarregada dos exames e tratamento ortóptico, atendendo pacientes dos médicos acima citados e também de oftalmologistas de fora, a quem eu enviava relatório sobre o resultado do exame, sugerindo, ao mesmo tempo, o tratamento a ser seguido.  Nesta clínica, eram atendidos pacientes particulares, de convênios e também pacientes vindos do SUS.
            Entretanto, meu trabalho como professora ainda não terminara.  A partir de 1974, em combinação com Dr. Henderson, o curso de ortóptica passou a receber 3 alunas, 2 ficavam no Hospital São Geraldo, com o Dr. Henderson e Lúcia Canhesto e a 3ª ficava sob minha orientação, na Clínica de Olhos do Hospital Felício Rocho.   Durante os 2 anos do curso era feito um rodízio entre as 3 alunas, de maneira que todas tinham a oportunidade de conhecer o trabalho das duas clínicas.
            E o curso de ortóptica assim funcionou até 1980 quando, por motivos particulares meus, foi encerrado este arranjo, ficando o curso fundamentado apenas no Hospital São Geraldo.   Voltei então a atender pacientes da própria clínica e também aqueles enviados por oftalmologistas de outras clínicas, como fizera no início.
            Ainda sobre ortóptica, mas fora do ambiente de clínicas, hospitais ou ensino e aprendizagem, fiz algumas apresentações de meus trabalhos em Congressos Nacionais e Estaduais, Congresso de Prevenção da Cegueira e até um Congresso Panamericano, que foram em seguida publicados nas Revistas Oftalmológicas Brasileiras. Fui também Presidente do 3 º Congresso Brasileiro de Ortóptica (III COBO), realizado em Belo Horizonte, em 1992.
            No ano de 1966, percebendo que os casos de ambliopia chegavam à Clínica do São Geraldo, todos os dias, em crianças com idade avançada para o início do tratamento, resolvi, por mim mesma, a investigar a incidência de casos de ambliopia nas crianças em uma escola pública de Belo Horizonte. Os exames de acuidade visual, motilidade ocular e convergência foram feitos por mim, com o auxílio de algumas professoras da escola, em 941 crianças de 4 a 6 anos. O resultado deste trabalho – “Tratamento e prevenção da Ambliopia.  Dados preliminares sobre sua incidência em Belo Horizonte”, foi publicado na Revista Brasileira de Oftalmologia (vol XXV – nº 3 - Setembro de 1966) . Este foi o primeiro levantamento estatístico feito no Brasil sobre a incidência da ambliopia,  antes mesmo do Projeto Osasco, realizado em 1970.
            Em 2002, por motivo de saúde, encerrei, por completo, minha atividade como ortoptista, que durara quase 40 anos.
 
O totem no saguão do Hotel Del Rey, em Belo Horizonte MG, anunciando e orientando o III COBO.
 
Prof. Eugene McGillis Helveston ladeado por sua esposa, pela Profª Solange Rios Salomão, pelas ortoptistas Célia D'Almeida e Laís Beviláqua e pela Profª Adriana Berezovsky.
 
Prof. Eugene Helveston com a ortoptista Andrea Pulchinelli Ferrari, na época graduanda do curso de Ortóptica e Tecnologia Oftálmica da EPM (atual Unifesp).
 
A querida, a peça fundamental e de importância ímpar para a realização do III Congresso Brasileiro de Ortóptica em 1992, na cidade de Belo Horizonte: Neide Oréfice, tendo ao fundo Prof.Jorge Alberto Fonseca Caldeira, Prof.Luis Carlos Ferreira de Sá e a ortoptista Dra.Vera Kortas Pires de Camargo.
 
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