Conferência apresentada na abertura do IV CONGRESSO BRASILEIRO DE ORTÓPTICA, realizado de 15 a 17 de novembro de 2007, Hotel Mercure Privilege, São Paulo.
Para mim é uma alegria e uma honra participar deste importante evento comemorativo dos 60 anos de Ortóptica no Brasil.
Poucas são as oportunidades que temos para relembrar ou refletir sobre a origem da nossa profissão. Sempre falta tempo para revermos o seu curso, seu início, as dificuldades, entraves, fracassos, lutas, enfim nossas perdas e nossas vitórias, sucessos, crescimento, ou seja, nossos ganhos. Que, foram muitos. Tantos que tornaram a nossa história grandiosa e bonita, porque afinal é a nossa história... Este é um momento especial para relembrá-la e para, ainda, arriscarmos um pouco de exercício sobre o futuro que, queira Deus, possa superar o que construímos nestes 60 anos.
A nossa história começa com um ilustre Oftalmologista, o eminente professor Moacyr Álvaro da Escola Paulista de Medicina, hoje UNIFESP, reverenciado até hoje como embaixador da oftalmologia brasileira, pioneiro na colaboração internacional para o progresso da oftalmologia, visionário, realizador de ideais, mestre, pesquisador com invejável talento inovador e generosidade procurando fazer com que em todas as oportunidades o maior número de pessoas pudessem tirar o maior proveito.
Em 1947 na clínica oftalmológica da E.P.M., na Rua da Liberdade deu um novo e importante passo para o desenvolvimento da oftalmologia brasileira introduzindo a ortóptica no Brasil.
Desde 1920 havia se iniciado na Europa, com Dr Ernest Maddox, uma nova fase de entendimento para as alterações da MEO. Considerava-se importante além do componente motor o fator sensorial na etiopatogenia do estrabismo. Ressaltava-se a importância do tratamento ortóptico reeducativo e a necessidade de um estudo minucioso e adequado para diagnosticar e tratar as alterações óculo-motoras. O Dr. Maddox inventou um grande número de equipamentos até hoje utilizados e iniciou sua filha Mary Maddox, a 1ª Ortoptista do mundo, na atividade Ortóptica.
Com novos conhecimentos sobre a anatomia e fisiologia do sistema nervoso central e da visão binocular, novos métodos investigativos e novas técnicas de reeducação surgiram e transformaram a ortóptica em ciência de prática minuciosa, com saberes específicos que demandavam um processo longo e complexo de formação. Assim em 1930 surge a 1ª escola e a 1ª clínica de ortóptica do mundo, em Londres fundada por Mary Maddox. Em 1933 se estabelece o 1º regulamento para o ensino e para o exercício profissional do ortoptista. Em 1937 com 100 profissionais formados na Inglaterra, o ensino da ortóptica se internacionaliza.
Neste cenário inicia-se no Brasil em 1939 o interesse pela ortóptica com a vinda do Dr Cass, diretor do Hospital Saint Mary de Londres, para proferir palestras e despertar a curiosidade dos oftalmologistas brasileiros sobre o estrabismo. Na época, poucos eram os oftalmologistas que se preocupavam com o aspecto sensorial. A maioria seguia a orientação do início do século XX. Contra-indicavam a cirurgia precoce, insistindo que só deveria ser feita após sete anos se o estrabismo não regredisse espontaneamente. A insatisfação em relação ao estrabismo era geral e nada se fazia pela ambliopia ou pela sua prevenção.
Moacyr Álvaro, antevendo os benefícios que poderiam advir para a oftalmologia brasileira com a introdução da ortóptica, por indicação de Duke Elder, do Instituto de Oftalmologia da Universidade de Londres, convidou par vir ao Brasil a renomada ortoptista do Moorfields Eye Hospital, Miss Beryl Mayou, que ministrou em São Paulo o 1º Curso, instalou a 1ª clínica e orientou os alunos que constituíram o 1º grupo de Ortoptistas da América do Sul. Era composto por Cacilda Gallo; Hilda Glasserfeld; Hildegard Braack; Lygia Alves Lima; Dra Mariana Noronha e Dr Olavo Pires Amarante, ambos oftalmologistas.
Assim surgia a parceria que duraria muitos e muitos anos entre oftalmologistas e ortoptistas. Porém, nesta parceria, nem tudo eram flores e a hostilidade, desconfiança e incompreensão de muitos oftalmologistas da época, logo se fez sentir. Entretanto esta 1ª turma era da mais alta qualidade e de tão nobre linhagem que conseguiu seguir em frente, dar tantos e tão bons frutos, que resistiram até agora e reunidos hoje configuram esta história que tem 60 anos de muita luta e muita glória.
A nova clínica então instalada e depois os cursos que se seguiram, ministrados por oftalmologistas e ortoptistas aqui formados e dentre os quais destacamos nossa querida colega Lygia Alves Lima tiveram o patrocínio do Centro de Estudos de Oftalmologia, passando a responsabilidade da Escola Paulista de Medicina, em 1962. Na UNIFESP, permaneceu até sua extinção em 1998 com a colação de grau da 48ª turma, com dupla formação: Ortóptica e Tecnologia Oftálmica, desde 1987, por exigência do próprio mercado de trabalho.
Foi um curso de referência para América Central e América do Sul. Formou várias gerações de profissionais brasileiros e de diversos paises como: Suriname, Peru, Colômbia, Bolívia, Paraguai e outros. Alguns destes profissionais atuam até hoje no seu lugar de origem ou em outros paises. Este curso colaborou na difusão do trabalho do ortoptista espalhando seus egressos, muitos deles, hoje renomados profissionais, por vários estados brasileiros e pelo interior de São Paulo.
Durante estes anos foram nossos parceiros queridos, contribuindo para a educação de qualidade do ortoptista alguns oftalmologistas renomados, como Dr Durval Prado, Dr Renato de Toledo, Dr José Belmiro de Castro Moreira, que esteve à frente do Curso por vários anos e cujo apoio foi decisivo para o reconhecimento do Curso pelo MEC em 16/10/1978.
Dr Ricardo Uras e Dr Ernesto Consoni Filho, oftalmologistas e Dr Ricardo Smith anatomista, entre outros, são nomes inesquecíveis; presenças marcantes, na vida acadêmica de inúmeros dos nossos profissionais.
Igualmente importante foi a dedicação e a garra dos ortoptistas que empiricamente tornaram-se professores abnegados, que bravamente resistiram a inúmeras adversidades durante estes anos conseguindo defender, divulgar e elevar dentro da universidade mais e mais o nível e o respeito pela profissão, pelo curso e pelos graduandos. Entre estes ortoptistas destacamos nossa mestra maior Zaida Nogueira, merecedora do nosso mais alto apreço e admiração, Yole Sarli, Marta Concone, Doris Blay, Dalel Haddad, Solange Fecarotta, Silvia Helena Seabra Trevisan, Alexina Ferreira e o inesquecível tripé da ortóptica como foi carinhosamente apelidado este grupo de Docentes Tituladas da Unifesp (Sueli de Faria Muller, Solange Rios Salomão e Maria Cecília Lapa) ao qual mais tarde se juntou Adriana Berezovsky. Estes profissionais permanecem até hoje na Universidade lutando, difundindo e dignificando a classe.
OUTROS CURSOS
Durante estes 60 anos, outros cursos se instalaram no Brasil: Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro; Faculdade de Medicina da USP, Hospital das Clínicas de São Paulo e Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto; Faculdade de Medicina de Recife, Universidade Federal de Pernambuco; Faculdade de Medicina de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Faculdade Fluminense de Medicina em Niterói e em 1974, quando por sugestão do oftalmologista, Dr. Joviano de Rezende, a Dra Mariusa Alencar da Silveira, advogada, administradora e ortoptista pioneira do ensino desta especialidade no Rio de Janeiro, juntamente com seu esposo, médico e dentista, Dr. Hermínio da Silveira, criaram o Curso de Ortóptica e o de Logopedia no Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação. Esta instituição em 2005 transformou-se em Centro Universitário Hermínio da Silveira e hoje em universidade, Uni IBMR do Rio de Janeiro. Diferentemente dos outros cursos permanece até hoje e é o único Curso do Brasil e América do Sul a formar este profissional. Autorizado pelo MEC em 1974, foi reconhecido como curso de nível superior em 1983. Oferece 30 vagas anuais, tem a duração de três anos divididos em 6 períodos. No momento é coordenado pela atuante ortoptista Vivian Secin. Muitos profissionais já concluíram sua formação nesta universidade que além da ortóptica clássica capacita os formandos para atuação em contatologia e campimetria. Na busca contínua pelo aprimoramento do ensino e pela formação com qualidade para o ortoptista brasileiro foi firmada importante parceria entre o Curso e a Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa, possibilitando relevante intercambio de conhecimentos.
Atualmente, a Uni IBMR ministra além do Curso de Ortóptica, outros cursos de graduação como fisioterapia e psicologia e de pós-graduação, tendo como reitor o Dr. Hermínio da Silveira e como Coordenadora Geral da Graduação e Pós-Graduação, a Profa Therezinha Cunha que participou diretamente de todo o processo de reconhecimento do curso pelo MEC e que vem colaborando junto ao atual CBOrt no processo de regulamentação profissional no Senado e na Câmara Federal. Desde a sua criação em 1974, a Uni IBMR promove anualmente várias atividades científicas, tais como a Semana Científico-Cultural, o Encontro de Ex-Alunos e a Jornada de Ortóptica em parceria com o CBOrt.
A Uni IBMR ao longo destes anos têm promovido o desenvolvimento do conhecimento da Ciência Ortóptica e divulgado trabalhos científicos em sua Revista Saúde, Sexo & Educação, sendo hoje a instituição de ensino superior, que mantém acesa a chama da Ortóptica no Brasil.
Ainda em relação ao ensino das práticas de ortóptica é importante ressaltar que muitos oftalmologistas durante estes anos, alguns de renome nacional e mesmo internacional receberam sua formação inicial no campo da motilidade ocular extrínseca de ortoptistas. Como dr Alberto Ciancia da Argentina e Dr Alfredo Arruga da Espanha.
ATUAÇÃO
Formação adequada com educação de qualidade foi uma preocupação constante dos dirigentes dos diferentes cursos de ortóptica que com responsabilidade e competência procuraram sempre adaptar as habilidades do ortoptista, às novas tendências da oftalmologia e às descobertas da ciência que durante estes 60 anos, foram muitas no campo do desenvolvimento visual infantil e da neurofisiologia. Graças principalmente as pesquisas de Hubel e Wiesel publicadas na década de 70, cujos ensinamentos possibilitaram o início do nosso entendimento sobre a linguagem interna do cérebro, nossa compreensão a respeito do processamento visual, da plasticidade e maturação do sistema visual humano e possibilidades de reeducação e recuperação das suas funções, mudou radicalmente.
Estes novos conhecimentos e os ensinamentos de outros estudiosos do assunto como Von Noorden, aliados a mudanças socioeconômicas no nosso país e ao retorno da estrabologia brasileira à era motora que novamente atribuía ao componente sensorial um papel secundário exigiram mudanças determinantes para a continuidade da nossa profissão e no desempenho competente do profissional.
Nossa atuação a princípio clínica desenvolvia-se em consultórios e hospitais. Pautava-se principalmente na realização de tratamento ortóptico por meio de inúmeros exercícios que objetivavam o restabelecimento de condições visuais satisfatórias mono e binoculares. Eram indicados à maior parte dos pacientes. Monocularmente os exercícios valiam-se da pleóptica, técnica utilizada na recuperação da ambliopia com fixação excêntrica por meio de equipamentos específicos, propostos por Bangerter na Suíça e por Cüppers na Alemanha, com sessões diárias de estimulação foveal. Os exercícios para tratamento das alterações da visão binocular eram realizados por meio de técnicas específicas de estimulação binocular e indicados antes e após a correção cirúrgica.
No início da década de 80 poucos eram os casos que recebiam a orientação de tratamento ortóptico por meio de exercícios. Enfrentávamos uma fase de descrença na terapia ortóptica tradicional pelos oftalmologistas que então valorizavam cada vez mais o componente motor dos desvios e a terapia cirúrgica isolada. Este movimento tornou-se tão forte que a ortóptica brasileira se viu seriamente ameaçada vivendo uma grave crise.
Os profissionais sentiram a necessidade de buscar alternativas e complementar sua formação. Com inteligência e competência, capacitaram-se para atuar em outros setores da oftalmologia, como lente de contato e campo visual; aperfeiçoaram-se nas técnicas de estimulação visual precoce e visão sub normal e buscaram a especialização e pós graduação estrito-senso, ampliando a atuação e tornando a carreira mais competitiva. Na época não havia pós-graduação na área nem tão pouco a possibilidade do profissional ser aceito em outra área de concentração. E uma nova batalha se inicia neste sentido, felizmente vitoriosa.
Desde o final dos anos 80 vários ortoptistas ingressam no mestrado e posteriormente alguns no doutorado em diferentes áreas, como Educação Especial, Psicobiologia, Saúde Publica, Distúrbios da Comunicação Humana, Fisiologia Experimental e Ciências Visuais, criada em 1992 no departamento de oftalmologia, por iniciativa das ortoptistas da UNIFESP, com o apoio da pró-reitoria de pós-graduação, aberta a profissionais não médicos com interesse no campo da visão.
A partir daí foi possível estabelecer parcerias até mesmo com centros de pesquisa no exterior, demonstrando a qualidade da formação deste profissional, sua capacidade de trabalho em equipes multiprofisionais e interdisciplinares e a importância do seu trabalho.
Desta nova fase estamos colhendo frutos maravilhosos. Alguns profissionais têm uma trajetória invejável. Com muito orgulho destacamos a ortoptista Dra Solange Rios Salomão, professora associada, orientadora de destaque na conceituada pós-graduação do departamento de oftalmologia da UNIFESP, e que assim como a Profa Dra Adriana Berezovsky tem orientado diversos mestrandos e doutorandos médicos e não médicos. A Profa Solange hoje é coordenadora executiva de projetos de pesquisa internacionais e consultora da OMS. Participou recentemente da reunião da organização em Cingapura e está de malas prontas para a próxima reunião em Genebra nos próximos dias para discutir programas voltados à Saúde Visual.
Outro nome de destaque cujo trabalho muito nos envaidece é Ana Maria Girotti Sperandio, ortoptista; especialista, mestre e doutora em Saúde Pública, pesquisadora do departamento de medicina preventiva da UNICAMP e do instituto de pesquisas especiais para sociedade (IPES) e coordenadora no Brasil, da rede de municípios e comunidades potencialmente saudáveis, (RMPS) junto a organização Pan-americana de Saúde (OPAS).
Poderíamos citar outros exemplos importantíssimos como Lydia Barbieri, Elaine Caetano de Souza, Silvia Palmieri, Celina Tamaki Monteiro de Castro, Meiry Furusato e outros mais que comprovam onde é possível chegar, tendo a ortóptica como formação básica, aliada a muita dedicação, garra e competência.
Assim seguiu a atuação do ortoptista nos últimos 15... 20 anos, encontrando aos poucos o seu caminho e o seu equilíbrio.
Na atuação clínica, o profissional hoje, tem seu lugar assegurado nas avaliações minuciosas dos problemas que envolvem a MOE; no tratamento oclusivo, qualquer que seja seu objetivo; em casos específicos realizando exercícios ortópticos domiciliares ou em consultórios públicos ou privados, com sucesso, se adequadamente orientados. Na prismoterapia; na promoção da saúde ocular e prevenção de seqüelas sensoriais; na avaliação, adaptação de recursos ópticos e orientação de pacientes com baixa visão e de seus familiares e integrando equipes multidisciplinares e intersetoriais.
Apesar da concentração dos profissionais nas regiões sul e sudeste, os ortoptistas ao longo destes anos espalharam-se e destacaram-se por quase todo país. Mathilde de Carvalho Sardinha em Brasília; Marília Vasconcelos no Pará; Mathildes da Amaral e Marcia Melo Rassi em Goiana; Neyde Oréfice; Lucia Maria Canhestro, Maria Conceição dos Reis e mais recentemente, Márcia Ribeiro Bastos em Minas Gerais; Vânia Maria Jatobá, Ruth Galvão Vieira e Maria do Carmo Silva Domingues atual coordenadora da Regional Norte, em Pernambuco; Myriam Pinheiro na Bahia, Vanda Hentchel no Rio Grande do Sul entre outros
ABO/CBOrt
Em 1952, ainda com o apoio do Professor Moacyr Álvaro, um grupo de ortoptistas idealistas composto por Cacilda Gallo, Lygia Alves Lima, Maria Cecília Oliva, Guiomar Moreira, Hilda Robinson, Hildegard Braack, Dra Mariana Noronha, Dr Olavo Amarante e Ruth Ottoni fundam a Sociedade Paulista de Ortóptica que se transforma pouco tempo depois em ABO com a finalidade de aprimoramento cultural e amparo à profissão. Em 2006, com o intuito de dar melhor visibilidade política e representatividade à classe transforma-se graças ao empenho e determinação das batalhadoras colegas Viviam Secin e Mariza Pfeiffer em CBOrt.
Nossa entidade de classe está comemorando 55 anos de serviços prestados. Respeitada pela seriedade e competência de seus diversos dirigentes e associados, tem sido o elo entre os ortoptistas e outros profissionais e /ou associações de classe. Divulga o trabalho e o nome de seus associados em diferentes situações. Cumprindo o estabelecido pelos seus fundadores organiza reuniões científicas, patrocina cursos e jornadas visando a troca de conhecimento entre seus profissionais e/ou com outros áreas. Freqüentemente convidada por outras associações de classe de renome, tem participado com destaque de eventos como Congresso Brasileiro de Oftalmologia, encontros do Conselho Brasileiro de Estrabismo, reuniões da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica, Congressos do CLADE e outros. Exemplo recente foi a importante participação no XXXIV CBO em Brasília que resultou, além da troca de saberes entre os nossos colegas, em um saudável estreitamento de laços profissionais com a Oftalmologia Brasileira.
Em 1979 após um período difícil em busca de um espaço para nossa sede, que durante um bom tempo ocupou uma sala, gentilmente cedida pela nossa querida e saudosa colega Niza de Maio, na sua residência, a ABO com a ajuda de empresas, amigos e associados conseguiu adquirir sua sede própria, bem no coração de São Paulo, na Av Paulista. Não poderíamos deixar de agradecer especialmente ao casal Paulo e Myriam Teixeira da Silva; ele oftalmologista e ela ortoptista e ex-presidente da ABO, pela particular colaboração.
Neste nosso simpático espaço, no qual tantas vezes nos reunimos, a sede ficou até a gestão da Lais Bevilaqua de Oliveira que em dezembro de 2000 passou a presidência para os colegas do Rio de Janeiro: Mariza Pfeiffer presidente e Jorge Amorim vice. A partir de 2001 a sede e a diretoria foram transferidas para o Rio de Janeiro e o espaço da Paulista alugado, ajuda a pagar as despesas atuais do CBOrt com sede a Rua Mário de Albuquerque 120, Barra da Tijuca, RJ.
Reuniões periódicas cientificas ou culturais durante muitos anos fizeram parte das atividades da associação em São Paulo. Constituíam um momento prazeroso de encontro entre os profissionais para troca de experiências ou discussões de casos clínicos, apresentações de trabalhos científicos ou debates sobre temas polêmicos. Alguns colegas chegavam a vir de outras localidades tão importantes e aguardadas eram nossas reuniões. Lá estavam sempre, a nossa querida relações públicas, Maria Lucia de Paula Santos e a nossa inesquecível conselheira Eva Tessler, de quem lembramos com saudades.
Desde 1978 a nossa associação de classe promove periodicamente sua jornada comemorativa. A 1ª realizada em Brasília foi um sucesso, seguiu-se a 2ª em São Paulo, algum tempo depois a jornada comemorativa dos seus 30 anos, com a participação de ilustres convidados, como o Prof. Harley Bicas, Prof. Jorge Alberto Fonseca Caldeira com quem em inúmeras ocasiões tivemos o privilégio de contar e outros.
Outras tantas jornadas se sucederam mantendo até hoje os princípios de difusão de um trabalho ético, aprimoramento científico e troca de idéias, refletindo a qualidade daqueles que as organizam. Merece destaque, a Jornada comemorativa dos 50 anos de Ortóptica no Brasil realizada com muito sucesso em São Paulo em 1998, durante a gestão da ortoptista Maria Amélia Ambrogini, com platéia lotada e apresentação de excelentes trabalhos. Mais uma vez o desempenho do departamento científico da instituição coordenado pela competente ortoptista Rita Vignoli Damiani, foi impecável.
Entre os principais feitos da associação temos que enfatizar também os três congressos brasileiros, concluídos com muito trabalho e dedicação.
O 1º realizado de 9 a 12 de junho de 1984 em Campinas, por iniciativa da Dra Solange Rios Salomão, presidente da associação, que com muito trabalho e determinação pode organizá-lo juntamente com a presidente do evento, a ortoptista Vera Pereira. Na ocasião tivemos a honra de receber como convidada a famosa ortoptista americana, Sally Moore.
O 2º realizado de 14 a 16 de outubro de 1988 em Águas de Lindóia foi organizado pela diretoria que tinha a frente Gilda Soares de Sordi e pela ortoptista, Gláucia Regina Silva, presidente do evento. Foi um grande e gratificante desafio, pois a profissão enfrentava uma crise nacional muito séria. Contamos com o apoio total dos membros da IOA que abrilhantaram nosso evento com a presença e com a apresentação de temas livres.
O 3º congresso foi realizado de 08 a 11 de outubro de 1992 em Belo Horizonte, durante a diretoria de Inês Eloísa Isoldi tendo Neide Oréfice como presidente do evento. Nosso ilustre convidado foi o eminente Professor Dr Eugene Helveston da Universidade de Indiana, USA .
Situações adversas como, mudanças na atuação profissional do ortoptista, extinção do Curso de Ortóptica da UNIFESP, mudanças da diretoria e da sede para o Rio de Janeiro e outras incerteza nortearam nossa profissão e foram precisos 15 anos para que o IV COBO pudesse ter lugar. Nossas dificuldades financeiras também fizeram com que deixássemos a IOA, fundada em 1967 com o objetivo de promover a ortóptica no mundo e da qual fomos membros filiados durante muitos anos. A IOA organiza no momento o XI Congresso Internacional de Ortóptica na Bélgica de 28 a 31 de maio de 2008.
Colegas ilustres nos representaram muito bem durante anos em reuniões internacionais e nos congressos desta importante associação: Cacilda Gallo, nossa embaixadora oficial, Mathilde Sardinha e Vera Kortas Pires de Camargo. Ortoptista homenageada também, como convidada de honra do XV Congresso do CLADE, em fevereiro de 2003, em Cartagena, Colômbia.
Dentre outros encontros científicas e de confraternização importantes, na década de 90 destacamos os coordenados pela colega Wanda Hentchell. Batalhadora incansável pelas causas da ortóptica no Brasil. Querendo reunir os ortoptistas Sul Americanos criou na época o Sortomsul, (sociedade de ortóptica do Mercosul) A 1ª reunião do grupo teve lugar em Porto Alegre em fevereiro de 1997 e a 2ª em Cuiabá em 1998, organizada pela Vera Pereira, ambas de extrema qualidade. Cursos, palestras discussões de casos e assuntos relacionados à atuação e formação profissional puderam ser debatidos com muita propriedade. Os encontros reuniram muitos colegas brasileiros, sul americanos e portugueses. Em Cuiabá tivemos a oportunidade de conviver alguns dias com nossos competentes colegas portugueses, a Profa Ilda Maria Poças coordenadora do curso de Ortóptica da ESTeSL. Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa e com o Professor Manuel de Oliveira Presidente da Associação de Ortoptistas da Comunidade Européia e da Associação Portuguesa de Ortoptistas (APOR) que com muita disponibilidade se propuseram a trocar importantes e úteis informações científicas, educacionais e trabalhistas sobre ortóptica sua atuação e formação na Europa. As fotos mostram bem a integração entre os presentes nos dois encontros.
Em 2000, a ABO e a Associação Portuguesa de Ortoptistas (APOR) organizam o I congresso Luso Brasileiro de Ortóptica, na cidade de Évora, Portugal. Em 2003 o II congresso ocorreu no Rio de Janeiro, o III em 2006, no Algarve, Portugal e preparamos o IV evento em 2009, novamente no Brasil.
Trata-se sem dúvida de uma união importantíssima e fortalecedora que tem proporcionado, uma troca de conhecimentos e idéias fundamentais para nossa renovação e crescimento.
Ainda a convite da APOR, que abriu espaço na sua revista para publicação de trabalhos brasileiros nossa colegas Fátima Passador e Wanda Hentchel tiveram em 2004 seus trabalhos publicados.
Não poderíamos deixar de mencionar que em 1969, por iniciativa da pioneira Cacilda Gallo foi editada a 1ª publicação científica e informativa da ABO. O Boletim, como foi denominado, número 1 da ABO, criado como veículo catalisador de conhecimento e difusor de idéias. Modesto e despretensioso foi dedicado a Moacyr Álvaro.
Seguiram-se mais 14 volumes com excelentes artigos inéditos quase todos escritos por ortoptista, transcrições de importantes debates e discussões de casos clínicos. Foi um precioso veículo de comunicação no qual ficaram registradas também relevantes informações para a classe. Infelizmente o nosso Boletim foi descontinuado em 1992, sem que tivéssemos conseguido indexá-lo, como foi nosso sonho e desejo durante muito tempo e pelo que trabalhamos muito. Sem nossos Boletins ficou para trás o importante Prêmio Moacyr Álvaro instituído por Cacilda Gallo e oferecido pela Associação ao melhor trabalho publicado no Boletim, segundo o julgamento de uma banca previamente estabelecida. Tivemos a honra de recebê-lo em algumas ocasiões. Penso que retomá-lo possa ser um incentivo interessante à realização de trabalhos científicos.
Ao relembrarmos nossa trajetória de 60 anos, seria impossível deixar de mencionar, nossa árdua e longa luta pela regulamentação da profissão. Mais ainda seria deixar de agradecer a algumas pessoas que realmente foram batalhadores incansáveis em prol desta causa que esperamos e desejamos muito esteja realmente próxima de um desfecho feliz.
Nossos agradecimentos e nossa homenagem por tanto empenho a: Mathilde Sardinha, Léa Sylvia Leite Fernandes, Lais Bevilaqua de Oliveira, Mariza Pfeiffer, Viviam Secin, Jorge Amorim, e demais colaboradores nesta luta. Queremos acreditar na importante manifestação pública do Doutor Marcos Ávila presidente do XXXIV Congresso Brasileiro realizado recentemente em Brasília e do Dr Hamilton Moreira, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, durante o evento e, na publicação na revista da Oftalmologia Universo Visual de novembro de 2007, em ambas oportunidades declararam seu apoio à causa da Ortóptica, seu empenho na aprovação da regulamentação da profissão e que os oftalmologistas, os ortoptistas e o CBO são parceiros.
Nesta nossa longa caminhada contamos com algumas pessoas que foram verdadeiros anjos da guarda, ou fada madrinha ou gênio da lâmpada possibilitando que muitos dos nossos sonhos pudessem se realizar. A eles a ortóptica brasileira agradece de coração e espera que continuem na missão de nos ajudar. Obrigada José Américo Madeira Pinto Jr ou simplesmente os queridos Jr e Magda da AMP-Produtos Terapêuticos e Ótica Foto City Júnior e obrigada querida Ana Paula De Maria, da Giardinni Optical Kid’s, nossos amigos e patrocinadores.
O reconhecimento dos cursos de formação do Ortoptista pelo MEC que garante a validade dos nossos diplomas; a regulamentação, respeito e valorização da nossa profissão; a possibilidade de realização de pós-graduação estrito senso, que qualificam e titulam os profissionais além de possibilitar a competitividade no mercado e as diversas adaptações na atuação profissional às exigências e transformações da ciência e do desenvolvimento tecnológico, parecem ter sido nossos principais obstáculos durante estes anos. Hoje, fazendo um retrospecto da nossa trajetória podemos constatar que fomos vitoriosos. Algumas vezes parcial outras vezes totalmente.
O êxito conquistado, pois não se trata de dádiva e sim de conquista, mostrou que temos uma classe atuante, que acredita no seu trabalho, respeita sua profissão e os que dela necessitam. Parabéns a Ortóptica Brasileira que aos poucos construiu esta vitoriosa história da qual temos muito orgulho.
Agora temos o desafio do Futuro....
Hoje minha visão é otimista. A evolução da nossa história nos mostra que já estamos nos preparando para ele.
Nossa colega de Portugal, Ilda Maria Poças em um interessante texto sobre a história da Ortóptica no seu país, cita uma frase, muito pertinente, de “William Osler” famoso médico e professor canadense que dedicou sua vida ao ensino da medicina, disse ele: “o melhor meio de se preparar para o futuro é concentrar-se com toda inteligência e entusiasmo no trabalho que estiver realizando hoje”. Pautado nesta idéia da qual compartilho podemos com alguma convicção, exercitar o futuro e ressaltar alguns pontos:
A educação certamente terá que ser permanente e de excelência para que possamos nos adaptar aos novos conhecimentos e a evolução da ciência que promete um melhor entendimento sobre a gênese de várias alterações sensório-motoras por meio dos avanços da genética e do estudo das células tronco.
A sobrevida cada vez maior dos prematuros, o envelhecimento da nossa população e o aumento da expectativa de vida do brasileiro, exigirão do ortoptista um aprimoramento da sua atuação tanto na área da avaliação, quanto na reabilitação buscando a atenção integral ao processo saúde-doença de modo a contribuir para melhoria na qualidade de vida destas parcelas da população.
O trabalho em equipe deverá se impor cada vez mais.
Desde a Carta de Otawa em 1986, que definiu a saúde como qualidade de vida e não mais apenas como ausência de doença, nosso entendimento sobre o papel dos profissionais da área da saúde vem se modificando. As ações são intersetoriais e o trabalho realmente é conjunto, multiprofissional, transcendendo a área biológica. Esta tendência vem se firmando a cada dia a ponto de acarretar mudanças curriculares nos Cursos médicos e nos campos afins, na busca por reorganizar e incentivar a atenção básica, tornando-a resolutiva, humanística e de qualidade. As novas exigências de formação do profissional de Saúde propiciam e estimulam a interdisciplinaridade desde a graduação. A integração do ortoptista em equipes de Saúde será natural e de fundamental importância, bem como sua inserção em programas de educação, promoção e prevenção para a saúde ocular. Portanto, atenção especial deverá ser dada à preparação dos nossos egressos para o mercado de trabalho. Será preciso rever a estrutura curricular que necessitará de maior flexibilidade. Deverá estar sintonizada com as necessidades sociais a atenta às mudanças do processo de trabalho em saúde. A pesquisa deverá ser mais estimulada e reorientada com ênfase na investigação das necessidades da comunidade.
Os conselhos profissionais também terão um novo desafio. As novas tendências educacionais e de mercado apontam para um novo paradigma que dissocia o diploma e o exercício profissional.
A valorização e a licença profissional por competência e não só por titulação, tendência que vem se intensificando, possibilitará o aperfeiçoamento das atribuições com a prática diária, cabendo a sociedade e ao conselho de classe participação na permissão ao exercício da profissão.
Certamente resolveremos alguns dos nossos problemas e acarretaremos outros.
Há 60 anos, partimos de um ponto - a união - (de um pequeno grupo com um interesse comum) força coesa capaz de transformar pequenos impulsos em ação dinâmica - semente germinadora de comunicação em movimentos cíclicos de re-união, (de várias gerações com interesse comum) e, assim chegamos até hoje, acreditando sempre na nossa profissão.
Que as gerações futuras conduzidas pelo mesmo espírito continuem em busca dos mais altos valores profissionais a que sempre se propôs a Ortóptica Brasileira.
PARABÉNS À ORTÓPTICA BRASILEIRA E A TODOS OS SEUS PROFISSIONAIS.
Diretamente envolvidos nestes relatos ou neles representados.
ESTA HISTÓRIA É NOSSA!!! |